Europa do desemprego rasteja na economia e afoga-se na dívida | iOnline
Mario Draghi, presidente do Banco Central Europeu, descobriu que a crise económica e financeira da zona euro e da própria União Europeia está a chegar à Alemanha. É verdade. As previsões de Outono da Comissão Europeia, ontem divulgadas, não deixam margem para dúvidas. A economia alemã vai crescer este ano 0,8% e manterá este baixo nível de crescimento em 2013. Longe vão os tempos em que a primeira economia europeia atingia um crescimento de 3%, como aconteceu em 2011. E com a Alemanha neste estado é natural que o conjunto da zona euro e da União Europeia apresente números verdadeiramente miseráveis em matéria de crescimento. A zona euro deve crescer 0,1% em 2013 e a União Europeia não passa dos 0,4% no próximo ano. Tudo a rastejar num pântano em que o desemprego não pára de subir e as dívidas públicas em geral andam longe dos 60%, regra de ouro do Pacto de Estabilidade e Crescimento, bíblia dos países que têm o euro como moeda. Basta ver o que se passa nesta matéria com a primeira economia europeia. A dívida pública alemã atinge os 81,7% do PIB este ano, baixa para 80,8% em 2013 e chegará no fim de 2014 aos 78,4%. Mesmo assim, Berlim conseguirá ser um paraíso neste universo de países afogados em dívida e, naturalmente, em desemprego.
É verdade que, olhando para o que se passa na Grécia, em Espanha e Portugal, falar em taxas de desemprego de 11,8% na zona euro e de 10,9% na União Europeia é como comparar o inferno com o melhor dos mundos. Mas, historicamente, as taxas ontem anunciadas pela Comissão Europeia representam uma enorme desgraça e um retrocesso sem precedentes nesta Europa do bem-estar, do conforto e da qualidade de vida. É natural, pois, que neste contexto de miseráveis níveis de crescimento os estados sociais surgidos no pós-guerra para grande orgulho dos governantes e satisfação dos cidadãos sejam, cada vez mais, uma miragem nos próximos anos e motivo de grandes saudades para quem assiste e vai assistir a cortes na saúde, na segurança social, na educação, na legislação laboral e em muitos outros aspectos do quotidiano dos orgulhosos e soberbos cidadãos europeus.
Portugal, neste contexto de desgraça nacional, vai sofrer mais que outros, que, apesar de tudo, possuem um tecido económico mais competitivo e não destruíram sistematicamente a sua indústria, pescas e agricultura.
Os tempos são outros e o bem-estar e o conforto não voltam mais. Portugal, neste panorama negro da Europa a 17 ou a 27, vai sofrer a bom sofrer para estancar esta crise, que, segundo a chanceler Angela Merkel, ainda vai durar uns bons cinco anos. Este ano a recessão vai andar pelos 3%, Para o ano, segundo a Comissão Europeia, desce para 1% e em 2014 haverá uma ténue luz ao fundo do túnel, com um tímido crescimento de 0,8%. É claro que ninguém, nem mesmo a Comissão Europeia, acredita que a recessão em 2013 será de 1%. Os organismos internacionais e os economistas mais conceituados fazem neste momento as suas previsões baseados numa recessão de 2,3%. Significa isto que o crescimento de 0,8% em 2014 será, mais cedo ou mais tarde, revisto em baixa. Resta saber se o novo valor será negativo ou positivo. Em matéria de desemprego, a Comissão Europeia insiste numa taxa de 16,4% para 2013, mas também neste domínio é muito natural que os números subam de forma significativa em 2013 e continuem muito altos nos anos seguintes. Uma economia a crescer abaixo dos 2% não cria emprego. Antes pelo contrário, é muito natural que o faça descer, com os dramas de quem perde direito a subsídios e fica definitivamente fora do mercado de trabalho.
Só desgraças Se a Alemanha, com os seus fracos desempenhos, é um paraíso nesta Europa de dívida e desemprego, ver os números das outras grandes economias europeias é olhar para um mapa de desgraças vividas e anunciadas para curto e médio prazo. A França do Sr. François Hollande, a grande esperança do crescimento económico e da esquerda europeia, vai crescer 0,2% este ano, 0,4% em 2013 e 1,2% em 2014. O desemprego no próximo ano vai atingir os 10,7%, uma taxa que irá necessariamente provocar mais desgostos a um presidente que em seis meses está com um dos mais baixos níveis de popularidade de sempre. Com a economia francesa a patinar e atolada em dívida, importa recordar que um relatório oficial sugere ao governo francês cortes nos custos do trabalho da ordem dos 30 mil milhões de euros. O valor é astronómico para um país que insiste em manter a semana de 35 horas. Mas se o crescimento e o desemprego são maus, que dizer de uma dívida pública de 90% em 2012, 92,7% em 2013 e 93,8% em 2014? É esta a Europa do século xxi. Cada vez mais pobre, endividada e com milhões de cidadãos sem trabalho e sem esperança.
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