Atletas e sexo. Ter ou não ter, eis a questão | iOnline
Os números não enganam. No que toca a lesões no futebol italiano, o Nápoles é rei a evitá-las. Na época 2011/2012, os jogadores da equipa falharam apenas 71 jogos devido a lesões. E na temporada anterior, o número ficou apenas nos 54. Coisa pouca, especialmente quando comparado com os números do AC Milan. Os jogadores do clube falharam 184 jogos devido a lesões no ano passado; esta época, o número subiu para os 307 encontros.
A equipa médica do Nápoles já apresentou uma explicação: “Evitar a actividade sexual durante os dois dias anteriores a um jogo é fundamental para prevenir distensões musculares, contracturas ou inflamações”, explicou o responsável médico do clube, Alfonso de Nicola. “É a regra na nossa equipa.” O Nápoles diz ter descoberto o Santo Graal para prevenir lesões, enquanto o Milan continua amaldiçoado. Ninguém sabe quais são os hábitos pré-jogo dos membros do clube de Silvio Berlusconi, mas a namorada do recentemente lesionado Kevin- -Prince Boateng, médio do Milan, foi directa: “A razão pela qual ele está sempre lesionado é porque fazemos sexo sete a dez vezes por semana.” Bunga bunga, como diria o velho Silvio.
O debate sobre as vantagens e desvantagens do sexo antes da actividade desportiva não é de agora. Se na Grécia antiga Platão dizia que os atletas olímpicos deviam evitar a intimidade antes das suas provas, já os latinos eram menos rígidos. “Os atletas preguiçosos são revitalizados pelo acto de fazer amor”, escrevia o romano Plínio, o Velho, no ano 77.
Centenas de anos depois, as opiniões continuam a dividir-se. O futebol e o boxe são as modalidades onde a abstinência continua a ser mais valorizada, mas há excepções. Enquanto Muhammad Ali passava seis semanas sem qualquer actividade sexual antes de um combate, Sugar Ray Leonard não dispensava a visita da namorada antes de entrar no ringue. Já no futebol, a limitação do acesso de mulheres e namoradas durante as competições internacionais é bem conhecida. Vários foram os seleccionadores a adoptar este método em mundiais de futebol: Berti Vogts na equipa alemã em 1994, Glenn Hoddle e Fabio Capello na inglesa, em 1998 e 2010. Já a selecção holandesa no Mundial de 1978 não foi por aí. “Alguns dos jogadores eram acompanhados pelas mulheres e eles acabaram em segundo lugar. Não digo que é um factor determinante, mas traz apoio”, avança Juan Carlos Medina, coordenador-geral do departamento desportivo da universidade mexicana Tecnologico de Monterrey.
“Se os atletas estiverem muito ansiosos na noite anterior ao evento desportivo, o sexo pode ser uma boa forma de relaxamento”, aconselha o especialista em medicina desportiva Ian Shrier. A ciência assim o diz, mas muitos atletas e treinadores continuam a dizer o oposto, com o Nápoles a ser o primeiro a falar em lesões. Mas “as mulheres enfraquecem as pernas”, já dizia o treinador Mickey a Rocky, no filme homónimo. Posição apoiada por Fredrik Ljungberg, ex-jogador do Arsenal. Ao contrário do que seria de esperar, o jogador que ficou famoso entre as mulheres pelos seus anúncios para uma conhecida marca de roupa interior, não é a favor de noites animadas antes dos jogos. “Já experimentei e os meus pés pareciam de cimento quando devia chutar a bola.”
Cada um sente o que sente, mas os cientistas desacreditam a teoria do cansaço. Fala-se em 200 ou 300 quilocalorias gastas em cada relação sexual, o equivalente a subir dois lanços de escadas. “Pode recuperar-se essa energia comendo um chocolate ou bebendo um refrigerante”, explica a especialista em medicina desportiva Maria Cristina Gutierrez.
Outra das hipóteses avançadas é a da importância da preservação da testosterona para garantir maior agressividade em prova. A ideia é defendida por muitos pugilistas hoje em dia, como Manny Pacquiao, o número um do ranking a par de Floyd Mayweather Jr., mas é considerada um mito pela ciência. “Nunca vi indícios que provem que o sexo tem impacto nos níveis de testosterona”, diz o urologista Neil Baum. “Se se abstiver, não vai acumular imensa testosterona que possa usar depois.” O investigador italiano Emmanuele Jannini vai ainda mais longe: “Depois de três meses sem sexo – o que não é assim tão raro para muitos atletas –, a testosterona desce radicalmente para níveis próximos dos de uma criança. Isto é útil para um pugilista?”, é a pergunta de retórica do professor da universidade de L’Aquila. Alguns acrescentam que nenhum treinador quer um jogador de futebol tão agressivo que só faça faltas – mas esse é um julgamento discutível.
A questão torna-se ainda mais complexa quando se fala de atletas mulheres. Vários investigadores falam em relaxamento muscular, bloqueamento da dor e benefícios relacionados com o orgasmo feminino. Quem não parece estar a par de tais notícias é Filippo Magnini, nadador italiano e namorado da medalhada Federica Pellegrini. Em vésperas de Olímpicos, Magnini assegurou que o casal iria evitar ter relações antes dos Jogos, para não perturbar o desempenho da nadadora. Pellegrini, talvez a par das últimas investigações científicas, não gostou da ideia e respondeu prontamente aos jornais: “Abstinência? Vocês estão loucos!”
O consenso entre comunidade científica e treinadores chega apenas quando se fala na relação entre as performances olímpicas nocturnas e o descanso – o importante é ter uma boa noite de sono, seja com ou sem actividade antes. Para muitos, o problema não está tanto no sexo em si, mas na rotina de sair à noite, beber, fumar e deitar tarde.
Por outro lado, excepções à regra não faltam. “Não me lembro se foi na Copa América de 1997 ou 1999. Ele chamou- -me, levou-me para as traseiras do hotel, subimos o muro, descemos uma escada e tínhamos um táxi à espera”, contou recentemente Ronaldo, o “Fenómeno”, acerca do compatriota Romário. O episódio foi mesmo em 1997 e a escapadela dos dois jogadores não impediu o Brasil de vencer a competição e dos dois colegas marcarem oito golos ao todo. “Sexo antes do jogo sempre me ajudou”, confessa Romário. “Jogo muito melhor quando faço sexo”, disse em tempos Ronaldo.
Mais radical do que os canarinhos só mesmo George Best. Uma vez, um jornalista perguntou-lhe qual a data mais próxima de um jogo em que tinha feito sexo. Best (irlandês, mas pouco católico) respondeu: “No intervalo, acho eu.” E não devia andar longe da verdade.
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