Perguntamos a alunos, professores e especialistas se era benéfico fazer uma paragem a meio do curso para ganhar experiência profissional e desenvolver competências que não se aprendem na universidade. A resposta é sim.
Enquanto os colegas gozam as férias de verão na praia, Alexandre Costa mostra o que vale na marca francesa de cosmética Clarins. Para quem ainda nem sequer fez o mestrado é óptimo ter conseguido um lugar na líder do mercado europeu de luxo nos cuidados de pele, que tem negócios espalhados por 150 países e fatura 1,2 mil milhões de euros em todo o mundo. Mas quando, há um ano, entrou pela primeira vez nos escritórios da filial portuguesa da Clarins, em Lisboa, não fazia ideia do que o esperava. Na bagagem levava 3 anos de teoria do curso de Administração e Gestão de Empresas, feito na Católica, e muita expectativa em perceber como a aplicaria na prática. Contrariamente à maioria dos colegas, Alexandre preferiu tomar o pulso ao mercado de trabalho a meio do curso, em vez de deixar o embate para o final do mestrado.
Não são muitos os jovens que interrompem o curso para ter uma experiência profissional, mas já são mais os que aproveitam as férias para fazer estágios em empresas, e terem um primeiro contacto com o mercado de trabalho. Pedro Rodrigues, professor na Faculdade de Arquitectura, da Universidade Técnica de Lisboa, defende a segunda opção. "É uma forma de o aluno participar num projeto, integrar-se numa equipa profissional, e começar a aplicar os conhecimentos que já adquiriu", explica, "ao mesmo tempo que tem a oportunidade de perceber que outras competências ainda lhe faltam para desenvolver a sua estratégia profissional".
Em alguns países europeus, muitos cursos contemplam um estágio profissional a meio, como forma de melhor prepararem os alunos para a realidade corporativa. "No ensino dual, no qual a componente escolar é complementada por períodos de trabalho, os resultados são francamente positivos, quer para o candidato, que rapidamente encontra emprego, quer para as empresas recrutadoras", diz Amândio da Fonseca, presidente do Grupo Egor, que gostaria de ver esta prática implementada em Portugal.
Mas enquanto isso não acontece, os alunos têm de fazer uma interrupção forçada, se querem começar a contactar de perto com o mundo das empresas. Foi o que fez Vasco de Lima Mayer, 21 anos, estudante de arquitectura do Instituto Superior Técnico. Depois de um estágio no verão de 2011, em Londres, regressou decidido a fazer outro, mas mais longo, no final da licenciatura. "Várias pessoas me disseram que aprenderam mais em poucos meses de trabalho do que em 5 anos de universidade", conta o jovem, justificando que estas conversas lhe serviram de incentivo.
Enviar 200 candidaturas
A necessidade de contactar com o mundo real, depois de tantos anos dedicados ao estudo, foi a principal razão que levou Alexandre Costa a afastar-se da universidade durante dois anos. Com o apoio da família, mas nem tanto dos amigos e colegas, não hesitou em seguir um caminho que é ainda pouco trilhado em Portugal. "Os jovens têm medo de se afastar daquilo que consideram 'normal', e quando dão conta estão todos a construir o mesmo percurso académico e profissional", diz o licenciado em Gestão. E isso era tudo o que ele menos queria. A paixão e entusiasmo que demonstrou pela área da beleza, cosmética e moda, e o empenho revelado durante a licenciatura, abriram-lhe as portas da Clarins.
Mas se para Alexandre encontrar o local certo para estagiar foi relativamente fácil, já Vasco, que desde o início quis fazer o estágio fora de portas, teve de se esforçar bastante mais. Candidatou-se a quase 200 ateliers e, apesar de ter sido um dos melhores alunos do seu curso no ano passado, foi aceite 'apenas' em 10, "e a maior parte eram não remunerados" - a concorrência aos estágios na Europa é feroz. Depois de uma entrevista feita por Skype, em que se discutiu essencialmente o seu portefólio e a experiência profissional, Vasco conseguiu um estágio no atelier do brasileiro Gustavo Penna, onde vai começar a trabalhar em Setembro. "Identifico-me muito com a sua arquitectura", confessa com um brilho nos olhos. Por outro lado, ter conseguido um estágio num país com uma economia emergente, é algo que considera um verdadeiro teste às suas capacidades. "Se conseguir superar este desafio, estarei preparado para muito mais", admite.
O receio de não terminar o curso
O maior receio de qualquer de professor - e pais... - é que estes alunos não regressem à universidade para terminar o curso. Pedro Rodrigues, professor da cadeira de Projeto do 5.º ano de Arquitectura da FAL, admite que esse é o único senão que vê nesta opção, apesar de alertar também para o facto de esta interrupção desenraizar o estudante do núcleo de colegas com quem fez a licenciatura, e provocar uma quebra no ritmo de trabalho.
Contudo, os dois licenciados com quem falámos não colocam a hipótese de deixar o curso a meio. Vasco que está a preparar-se para se instalar nove meses em Belo Horizonte, recorda que em Portugal só se é arquitecto depois de fazer o mestrado e o estágio da Ordem dos Arquitectos, o que é uma forte razão para o trazer de volta à escola quando o estágio terminar.
E Alexandre fixou a data de Setembro de 2013 para voltar aos estudos e já está a tratar da candidatura a algumas top business schools europeias. "Sei que os processos de recrutamento são exigentes e difíceis, mas parto com grande confiança", admite o jovem gestor, que espera que a experiência que acumulará em dois anos de trabalho na Clarins, represente uma mais-valia.
Ganhar mundo
Os jovens que se aventuram por este caminho também sabem que há outras competências, cada vez mais valorizadas no mercado de trabalho, que não se aprendem na universidade. Habituado às facilidades que viver com a família proporciona, e aos mimos dos pais e dos irmãos, Vasco de Lima Mayer prepara-se para uma vida nova no Brasil. "Este estágio será bom não só a nível profissional, mas também vai ser uma forma de ganhar experiência de vida e capacidade para superar obstáculos sozinho", assume.
Alexandre Costa reconhece que sempre encarou esta pausa no curso como uma forma de se desenvolver em diferentes frentes, porque precisa de 'ganhar mundo'. "É preciso evoluir nas competências curriculares complementares, como as línguas, os hobbies e as experiências de 'não estudo', que são tão importantes para abrir horizontes e aprender a pensar multilateralmente", justifica o estudante da Católica. Ao fim de um ano a trabalhar na Clarins e com outro ano ainda pela frente, antes de avançar para o mestrado, Alexandre garante que a experiência não poderia ter sido mais positiva. "Consegui melhorias significativas em várias áreas do meu currículo, realizei o desejo de trabalhar numa área que me apaixona - o mercado do luxo -, tive oportunidade de contactar com pessoas mais experientes, que me passaram ensinamentos importantes, e estou com uma vontade renovada de abraçar o mestrado", garante.
Sem excesso de bagagem
A bagagem que o aluno ganha com esta experiência "também é positiva para o curso", realça Pedro Rodrigues. Mas é preciso que ele perceba que quando voltar à universidade poderá ter de fazer disciplinas que depois desta experiência lhe podem parecer básicas, mas que são, na verdade, fundamentais para completar e enriquecer a sua formação académica, que ainda está a meio.
E como olham as empresas para os currículos destes candidatos? "Todas as experiências profissionais num recém-licenciado contam", assume o professor de arquitectura, que começou a trabalhar no 1º ano de curso - prática que era normal no final dos anos 80, quando se formou, e que se conciliava com os estudos. Amândio da Fonseca explica o que desperta a atenção dos recrutadores nos currículos destes jovens: "É a atitude proactiva do candidato de procurar uma actividade, a ambição de ser independente, de assumir responsabilidades e tomar iniciativa". E isso pode ser determinante quando um recrutador fica indeciso entre dois candidatos? "Não tenho dúvidas em afirmar que sim", responde taxativamente o presidente do Grupo Egor, que faz recrutamento em Portugal há 25 anos.
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