quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Estudo põe em causa segurança dos transgénicos no mercado | iOnline

Estudo põe em causa segurança dos transgénicos no mercado | iOnline

Cientistas relatam aumento alarmante da mortalidade em ratinhos alimentados com rações de milho modificado. Especialista português admite que nunca a segurança dos transgénicos foi tão abalada como ontem mas duvida dos resultados.

Até o triplo das mortes prematuras ou tumores quatro vezes maiores do que o normal. Um estudo publicado ontem na revista “Food and Chemical Toxicology” põe em causa a segurança de transgénicos no mercado ao alegar que tudo isto aconteceu numa experiência em laboratório que incluiu, na dieta de ratinhos, milho modificado para resistir a herbicida. O estudo está a ser desvalorizado pela comunidade científica, mas fez soar os alarmes: é a primeira vez que a segurança de transgénicos aprovados e à venda é posta em causa desta maneira.
O autor principal é um investigador francês conhecido pela sua posição antitransgénicos, mas o trabalho foi aceite para publicação numa revista de topo, o que significa que antes de ser impresso foi revisto por outros cientistas que não encontraram falhas de maior que pusessem em causa os resultados. Ainda assim, a primeira reacção foi de desconfiança.
Pedro Fevereiro, investigador do Instituto de Tecnologia Química e Biológica e presidente do Centro de Informação de Biotecnologia, admite que este é o primeiro grande abalo na ciência dedicada à segurança dos transgénicos. Mas para já, tal como manifestaram vários cientistas europeus, os resultados levantam dúvidas: “Se há estes efeitos brutais, porque é que nos últimos 15 anos nunca nenhum veterinário detectou este tipo de tumores e mortes nas centenas de ovinos, bovinos e aves alimentadas com rações à base de transgénicos?”, questionou ao i, adiantando que o ruído que envolve a publicação impõe alguma desconfiança. “O autor principal tem uma posição assumidamente antitransgénicos e França acaba de ser condenada pelo tribunal europeu por ter suspendido o cultivo de milho transgénico. É curioso que o estudo surja duas semanas depois”, disse o investigador há 30 anos nesta área, admitindo que se o autor fosse outro estaria mais preocupado. Fevereiro defende que o estudo contraria toda a literatura publicada, pelo que terá de ser replicado e bem analisado. Em 2007 o investigador publicou na revista da especialidade “Animal Feed Science and Technology” uma revisão de 18 estudos e concluiu não haver indícios de risco acrescido na ingestão de transgénicos. Também um relatório da Comissão Europeia, de 2011, revelou que numa década de investigação financiada em 200 milhões de euros não foram encontradas provas de perigo. “Vamos ter de esperar. Não seria a primeira vez que uma revista prestigiada tem de se retratar depois de uma avaliação incorrecta. Já aconteceu como revistas como a ‘Lancet’ ou a ‘Science’.”
No mesmo relatório de Bruxelas lê-se, contudo, que o dossiê nunca estará fechado. “Responder ao desafio de ‘provar que as colheitas transgénicas são seguras’ não é fácil”, escreveu na altura Marc Van Montagu, da Universidade de Ghent. “A ciência pode certificar a existência de perigo, mas não a sua ausência. Os cientistas continuarão a questionar quaisquer resultados negativos e haverá certamente reconhecimento de uma pessoa que encontre uma prova de perigo.” Se o estudo for confirmado por outros laboratórios – alguns cientistas alegam, por exemplo, que os colegas usaram ratinhos de uma espécie mais susceptível a tumores –, essa pessoa é Gilles-Éric Séralini, o autor principal do artigo e investigador da Universidade de Caen, na Normandia. Contesta os resultados de empresas como a Monsanto e pede desde 1997 uma moratória para suspender a venda de transgénicos enquanto não houver mais estudos independentes. É acusado de enviesar resultados por “militância” à causa mas, no ano passado, saiu por cima: a justiça pronunciou-se pela primeira vez sobre um conflito entre cientistas e condenou um colega que o acusou de ”alarmista” num programa de televisão a uma multa de mil euros, por difamação. Em 2008 recebeu a ordem de mérito do Ministério de Ecologia francês e ontem limitou-se a dizer que este é o primeiro estudo a avaliar a longo prazo o efeito de transgénicos na saúde, com resultados alarmantes.

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