BCE desvenda a sua nova arma e os mercados não querem ser desiludidos - Economia - PUBLICO.PT
O Banco Central Europeu (BCE) vai definir um limite de taxa de juro para começar a comprar dívida pública? Vai deixar de esterilizar estas compras, aproximando mais o seu programa à "criação de dinheiro" feita pelos bancos centrais dos EUA e do Reino Unido? E o que fará se um país "intervencionado" não cumprir com as suas obrigações de política orçamental e económica? Os mercados vão estar hoje em suspenso para ouvir as respostas do presidente do BCE, Mario Draghi, a estas questões. E não querem ser desiludidos.
Os analistas estão divididos sobre se o conselho de governadores do BCE decidirá ou não avançar para um novo corte da taxa de juro (já no mínimo histórico de 0,75%) após a reunião mensal de hoje, mas o que irá concentrar as atenções é o que Draghi vai dizer - ou omitir - sobre o novo programa de compra de dívida. Ontem, a agência Bloomberg noticiou, citando fontes próximas do banco central, que o acordo sobre o novo modelo de intervenção já estará fechado: a compra de dívida será "ilimitada", ou seja, não será fixado limite máximo para os recursos usados, e concentrar-se-á em títulos de curto prazo, até três anos.
Segundo a Bloomberg, as compras continuarão a ser "esterilizadas" (ver caixa) para evitar o risco de inflação e não haverá nenhum limite publicamente assumido para a taxa de juro, o que faria com que o BCE tivesse de intervir caso os custos de financiamento de um país ultrapassassem um determinado patamar. A contrapartida da intervenção será exigir que o país faça um pedido formal de ajuda aos fundos de resgate europeus e se comprometa a condições de política económica e orçamental. Se o país não cumprir com o acordado, diz a Bloomberg, o BCE poderá suspender as compras de dívida ou mesmo retaliar, voltando a vender no mercado os títulos adquiridos, o que poderia colocar novamente o Estado soberano à mercê dos mercados.
A expectativa inicial era de que este programa tivesse como destinatário imediato a Espanha, que pediu já ajuda para a banca e está à beira de ter de pedir um resgate integral, à medida que a economia afunda na recessão e as comunidades autónomas tremem. Contudo, nos últimos dias, analistas dos bancos JP Morgan e Credit Suisse defenderam que a estratégia do BCE poderá ser testada em Portugal, porque o mercado secundário para a dívida de curto prazo portuguesa é relativamente pequeno. Neste momento, há cerca de 24 mil milhões de euros em títulos até três anos, pelo que bastaria ao BCE fazer compras relativamente pequenas para ter um grande impacto nas taxas de juro. Além disso, tal poderia ajudar a aliviar a pressão dos mercados sobre Espanha.
Mais do que o destinatário, a grande dúvida em torno da nova intervenção do BCE é saber se será suficiente para convencer os mercados. Desde que rebentou a crise europeia, a autoridade monetária já comprou 210 mil milhões de euros de dívida dos países periféricos, mas sempre apresentou este programa como sendo temporário e limitado. Desta vez, Mario Draghi elevou a fasquia, dizendo que o BCE iria fazer tudo o que fosse preciso para salvar o euro.
Só que a feroz oposição do banco central alemão (o Bundesbank) à compra de dívida pode vir a limitar o alcance da intervenção do BCE. Além disso, Mario Draghi poderá adiar o anúncio dos detalhes do programa até que seja conhecida a decisão do Tribunal Constitucional alemão, no próximo dia 12, sobre se o novo fundo de resgate europeu viola ou não a Constituição germânica.
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